
Inteligência Artificial – Apropriação, Alucinação e a (in)Justiça da Criação
Há um século, no alto da escadaria de Odessa, um carrinho de bebê descia sozinho entre corpos e sombras, e o cinema aprendia a manipular o tempo, o olhar e a emoção da plateia através da montagem. Eisenstein não inventou aquelas imagens: ele as construiu a partir de corpos reais, luz real, gesto real — e as organizou segundo uma lógica que, também ela, era uma forma de apropriação e de recriação do mundo. O cinema sempre foi, em alguma medida, uma máquina de reprocessar o real. Cem anos depois, uma nova máquina reprocessa imagens — mas sem corpo, sem luz, sem gesto. Aprende observando bilhões de fotogramas feitos por outros, e devolve algo que se parece com criação, mas que carrega, em sua origem, uma pergunta incômoda: de quem são essas imagens que a inteligência artificial aprendeu a produzir? E quando ela erra — quando “alucina”, no termo que a própria engenharia escolheu para descrever suas falhas —, o que exatamente ela está deformando? A 24ª edição do Festival de Cinema de Cuiabá – Cinemato assume esse desconforto como tema. Não para condenar a tecnologia, nem para celebrá-la sem crítica, mas para colocá-la sob o mesmo escrutínio que o cinema sempre aplicou a si mesmo. Apropriação, alucinação e a (in)justiça da criação são três faces de uma mesma questão: o que significa criar, quando criar depende cada vez mais de repetir — e às vezes distorcer — o que já foi criado por outra mão, por outro olho, por outra intenção? É uma pergunta que atravessa o cinema brasileiro e mato-grossense hoje, entre realizadores que usam ferramentas de IA em seus processos e realizadores que veem, nessas mesmas ferramentas, uma ameaça concreta à autoria e ao ofício. O Cinemato não escolhe um lado — reúne os dois, no seminário temático, na roda de conversa, nas oficinas formativas e, sobretudo, nas telas, onde cada filme selecionado é, à sua maneira, uma resposta a essa pergunta.

